Tamanho da letra
Normal Médio Grande
Facebook Partilhar e divulgar
Enviar por email
Imprimir Página
Início > Biblioteca > Dossiers Técnicos > Incontinência e Esclerose Múltipla

Jorge Ascenção, 2010

Psicólogo Clínico da SPEM

Delegação Distrital do Porto

[a publicar no próximo Boletim]


 

Os sintomas e as limitações num quadro de Esclerose Múltipla (EM) variam de individuo para individuo, entre outros, consoante a localização e extensão das lesões na mielina. Sintomas diversos e imprevisíveis, que surgem e alternam as suas combinações, em que cada portador de EM experimenta sintomas diferentes e com uma progressão própria (Falvo,2005).

 

Neste conjunto, a incontinência urinária (IU) continua subdiagnosticada uma vez que o estigma associado é percebido com gravidade (Wyman et al, 1990). Uma higiene pessoal cuidada é uma expectativa da nossa sociedade, em que os "desperdícios" corporais são entendidos como "sujos". E, por esta razão, a incontinência nos adultos é vista como algo inaceitável (Newman, 1989).

 

É a associação deste estigma com a crença de que a incontinência é um resultado inevitável da progressão da EM, que tem evitado que muitos portadores procurem tratamento precoce (Goldstein et al, 1992).

 

Num quadro de EM, a incontinência pode tornar-se um factor central na gestão das consequências da sua doença. Um factor de ansiedade que se torna simultaneamente inconveniente, limitativo, frustrante e humilhante (Koch et al, 2000).

 

"Estava na fila do banco para fazer um depósito e senti uma pressão na bexiga, mas achei que tinha mais que tempo suficiente. Entretanto o tipo no balcão não se despachava e eu já estava a começar a suar. Não ia aguentar! Mas... se saisse o que iriam pensar... que estava maluca?? Fiquei... Assim que dei um passo comecei a sentir-me molhada e quente... Tinha acabado de perder o controlo. Fui para o carro e nem olhei para trás. Chorei tanto... Nunca mais voltei aquele banco com a vergonha. Sujei o carro todo..."

 

Aprender a lidar com a incontinência urinária na vida de cada um pode ter um efeito libertador. Cada um deve dar a si mesmo a oportunidade de analisar sistematicamente o seu problema, deixando emergir uma mudança positiva (Koch et al, 2000). É a discussão orientada das experiências negativas que, com o Psicólogo Clínico, pode levar a uma tomada de acção positiva.

 

Promover o conhecimento de cada um, num ambiente livre de julgamentos e de ameaças, numa atmosfera calma onde o conhecimento trocado é relevante e constructivo para cada um (Koch et al, 2000).

 

A incontinencia urinária pode ser gerida com treino que ajude cada um a estabelecer o controlo sobre a sua dieta alimentar e, um horário regular de evacuação. Também são possíveis programas de aumento da percepção e sensibilidade do estímulo que alerta para a necessidade de evacuação (Falvo, 2005).

 

Com a monitorização da altura do dia em que acontecea ingestão de liquidos, e assegurando a disponibilidade de sanitários conseguimos minimizar a possibilidade de "acidentes de percurso".

 

É importante, iniciar em Consulta Individual, entre outros, programas de gestão e diminuição do stress associado à EM e aos seus sintomas. Aqui, conseguimos evitar que a incontinência "obrigue" o portador de EM a desistir de actividades de exterior.

 

Vários passos podem ser dados para que as limitações sociais sejam diminuídas. Uma avaliação ponderada do individuo e do seu ambiente deve ser estabelecida. Poderemos, deste modo, fazer modificações e compensações adequadas (Falvo, 2005).

 

Aumentando a capacidade funcional de cada um conseguiremos o potencial para reduzir o impacto social e psicológico da incontinência urinária na Esclerose Múltipla.

 

Falvo, D. ,2005. Medical and Psychosocial Aspects of Crhonic Illness and Disability, 3º Edição, Jones and Bartlett Publishers, EUA.koch, T., Kralik, D., Kelly, S. (2000), We just don't talk about it: Men living with urinary incontinence and Multiple Sclerosis, Int. Journal of Nursing Practice. Gray, M., Dougherty, M., Green, B. (1987) Urinary incontinence: pathophysiology and treatment, Journal of enterostomal Therapy. Wyman, J., Harkins, W., Fantl, A. (1990) Psychosocial impact of urinary incontinence in the community-dwelling population, Journal of the American Geriatric Society. Newman, K., (1989) The treatment of urinary incontinence in adults, Nurse Practitioner. Goldstein, M., et al. (1992), Urinary Incontinence: Why people do not seek help, Journal of Gerontological Nursing.

Designed by Exadorma
Alojamento gentilmente cedido por PHNEUTRO