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Início > Biblioteca > Dossiers Técnicos > Sensibilidade ao calor na Esclerose Múltipla

 

A proximidade do Verão e a expectativa do regresso do calor podem provocar ansiedade em muitas pessoas com Esclerose Múltipla (EM). Quando para muitos o tempo quente significa sair de casa e do trabalho para o ar livre, para quem tem EM os desafios aumentam com a possível exarcebação de sintomas ainda que de forma temporária, derivado ao aumento da temperatura corporal. Conheça melhor o que acontece com o corpo, a relação do calor na EM e algumas estratégias para o superar.

 

Elaborado por: Luísa Sacchetti Matias – Comunicação SPEM

Revisão: Equipa de Neuroreabilitação SPEM

Publicado: Boletim "Esclerose Múltipla" - SPEM, nº 95, 1º Trimestre 2012

 

O que causa a intolerância ao calor na EM?

Sabe-se que na EM a destruição da mielina, a bainha protectora que envolve e protege as fibras nervosas, leva à formação de placas que atrasam os impulsos nervosos. A exposição ao calor retarda ainda mais esta condução nas regiões desmielinizadas, causando sintomas de intolerância, mesmo com apenas uma subida de menos de um 1° na temperatura corporal[1]. Este fenómeno foi observado por Wilhem Uthoff em 1890, e ficou conhecido como sintoma ou síndrome de Uthoff. É importante distinguir que o calor pode agravar os sintomas da EM, mas não agrava a doença em si[2].

 

Qual a prevalência da intolerância ao calor na EM?

Estima-se que cerca de 30-40% das pessoas com EM têm intolerância ao calor. Muitos indivíduos podem ter até maiores dificuldades com o frio, existindo uma grande variabilidade na sensibilidade às temperaturas. Durante muitos anos, utilizava-se o chamado “teste do banho quente” para diagnosticar a EM. Isto de forma a que fosse visível o aparecimento ou não de sintomas sugestivos de EM. Este teste caiu em desuso com o aparecimento da Ressonância Magnética, mas ainda é praticado em países onde esta tecnologia não existe ou é de difícil acesso1.

 

O sobreaquecimento do corpo pode ser desencadeado por vários factores, traduzir-se em diferentes sintomas que, por sua vez, têm variantes distintas. Isto acontece porque cada pessoa com EM sente o impacto do calor de forma diferente[3].

 

 

Factores/Causas:

Fotografia: Stock.XCHNG

hidratar
  • Temperatura ambiente elevada
  • Humidade elevada
  • Saunas
  • Banho de imersão
  • Actividade física
  • Febre

 

Sintomas mais comuns:

  • Fadiga
  • Dormências
  • Visão turva
  • Diminuição da função cognitiva[4]
  • Urgência urinária
  • Tremores
  • Fraqueza
  • Ataxia

 

Variantes [1]:

Limiar: algumas pessoas toleram caminhar ao ar livre em tempo quente, desde que evitem o sol e bebam bebidas frescas. Outras começam a sentir os sintomas com temperaturas mais baixas e com muito menos actividade.

 

Severidade e tipo de sintomas: novamente, consoante a pessoa, os sintomas podem variar de incomodativos (dormências nos pés ou mãos) até incapacitantes (fadiga intensa ou fraqueza muscular que impede a marcha ou a realização de simples tarefas diárias).

 

- Tempo decorrido até ao desaparecimento dos sintomas: todos os sintomas que são derivados da intolerância ao calor devem desaparecer quando o corpo retorna à temperatura normal, mas isto pode demorar mais tempo em algumas pessoas.

 

 

Estratégias/Conselhos [5]:

  • Arrefeça o corpo antes do exercício físico – estudos[6] [7] indicam que a pessoa com EM pode beneficar do facto de estar previamente num ambiente mais fresco ou utilizar outras formas de arrefecer o corpo (ex.: contacto com bolsa ou pack de gel que pode ir ao congelador/frigorífico ou uma toalha molhada na parte de trás do pescoço), antes de fazer exercício. Estando o corpo mais fresco inicialmente, a pessoa tem maior resistência à fadiga e maior capacidade de se exercitar por mais tempo, diminuindo o aparecimento e a intensidade dos sintomas provocados pelo aumento da temperatura corporal.
  • Utilize o ar condicionado – essencial em ambientes (incluindo automóvel) que sobreaquecem nas alturas mais quentes do ano.
  • Use água temperada e fria no duche/banho – modere a temperatura da água para que não fique demasiado quente. Use preferencialmente água tépida e fria durante os meses de maior calor.
  • Mantenha-se hidratado! Beba mais líquidos e bebidas frescas – a boa hidratação é essencial à regulação térmica do corpo e ao bom funcionamento cognitivo e emocional[8]. Se não gostar de água, uma alternativa é o chá frio, ice tea de vários sabores, sumos de fruta com gelo, sendo que os de frutos vermelhos previnem o risco de infecção urinária, e também pode optar por gelatinas. 
  • Mantenha a pele bem hidratada
  • Utilize roupas frescas – de preferência de fibras naturais para ajudar retirar a transpiração da pele, como o algodão, e de cores claras.
  • Fotografia: @divitempo

    onda_calor
  • Coloque uma toalha molhada na parte de trás do pescoço e molhe a zona dos pulsos em água fria – ajudam a baixar a temperatura corporal. 
  • Evite os “escaldões” do sol, pois o seu corpo ficará com a temperatura anormalmente elevada durante alguns dias, o que pode prolongar a manifestação de sintomas.
  • Utilize um chapéu ou boné – evite assim que a cabeça fique exposta ao sol directo, e procure mantê-la à sombra.
  • Aclimatização – se planeia fazer férias para um destino mais quente, reserve alguns dias para se ambientar à nova temperatura e condições de humidade, sem demasiados compromissos.

 

Ideias importantes a reter:

    doctor

     

    Fotografia: Stock.XCHNG


    • Fale sobre este assunto com os profissionais de saúde que o acompanham (médico, enfermeiro, fisioterapeutas e outros), pois são quem lhe pode fornecer informação mais adequada ao seu caso.
    • Antes de iniciar um programa de exercício físico, fale com o seu médico assistente.
    • O sol é benéfico e vital para todas as pessoas. Ainda existe o mito que o “sol faz mal à EM”, mas o que pode levar ao aparecimento deste tipo de sintomas transitórios é o excesso de calor e consequente aumento da temperatura corporal. Portanto, tente gerir o seu dia a dia de modo a reservar algum tempo ao ar livre, evitando o excesso de calor mas aproveite alguns períodos de exposição ao sol, de preferência ao início da manhã e final de tarde.
    • Os sintomas provocados pelo calor são transitórios. Se sentir que não desaparecem, mesmo após um período de repouso e consequente regresso da temperatura corporal ao estado normal, isto é, se esses sintomas se manifestarem de forma pronunciada passadas 24h, contacte o seu enfermeiro e médico assistentes.
    • Se tiver febre, a causa dos sintomas é diferente dos que foram abordados neste artigo. Deve sempre falar com o seu médico/enfermeiro assistente para controlar a sintomatologia decorrente.

 


[1] Julie Stachowiak, An Overview of Heat Intolerance and MS, About.com Guide, Updated April 06, 2011, Link: www.ms.about.com/od/signssymptoms/a/heat_intoleranc.htm

[2] Wayne State University – School of Medicine, General Information Regarding MS, Link:  www.mscenter.med.wayne.edu/pdf/general_information_regarding_ms.pdf

[3] Ponichtera-Mulcare JA. Exercise and multiple sclerosis. Med Sci Sports Exerc 1993;25:451–465.

[5] Trish Robichaud, Tips for living with MS, MS Society of Canada, Link: www.mssociety.ca/en/information/tips.htm

[6] FRANK E. MARINO, Heat reactions in multiple sclerosis: An overlooked paradigm in the study of comparative fatigue, Int. J. Hyperthermia, February 2009; 25(1): 34–40.

[7] White AT, Wilson TE, Davis SL, Petajan JH. Effect of precooling on physical performance in multiple sclerosis. Mult Scler 2000;6:176–180.

[8] George H. Kraft, Marci Catanzaro, Living with Multiple Sclerosis – A Wellness Aproach, Second Edition 2000, Demos Medical Publishing.

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