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By 2021-04-24 No Comments

Farmácias Domiciliárias: Dispensa de proximidade será alargada a todo o país

 

Com o surgimento da pandemia, as farmácias comunitárias assumiram-se como primeiro e último contacto dos cidadãos com um profissional de saúde. Informando, aconselhando e esclarecendo a população sobre os cuidados e as medidas a adotar para mitigar a propagação do Coronavírus.

Ao longo dos últimos meses, as farmácias assumiram não só as suas funções no que respeita à dispensa de medicamentos, prevenção da doença, promoção da saúde e aconselhamento farmacêutico, como também asseguraram a prestação de um conjunto de serviços excecionais como: a entrega de medicamentos ao domicílio; dispensa de medicamentos hospitalares; renovação de terapêutica para doentes crónicos; administração da vacina da gripe no âmbito do programa “Vacinação SNS Local”.

Portugueses sem restrição no acesso a medicamentos durante a pandemia

Segundo um estudo realizado pela Gfk Metrics, para o “Movimento Saúde em Dia – Não Massacre a sua Saúde”, promovido pela Ordem dos Médicos e pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), com uma amostra de mais de mil pessoas, metade dos inquiridos considera que a pandemia dificultou o acesso aos cuidados de saúde, mas a quase totalidade dos participantes declarou não ter qualquer tipo de limitação no acesso à medicação.

Nos últimos anos, vários hospitais desenvolveram projetos de dispensa de proximidade. No Centro Hospitalar do S. João, no Porto, por exemplo, o projetoFarma2Care” começou com os doentes de VIH e, em outubro de 2020, foi alargado ao cancro da mama e Esclerose Múltipla. A pandemia da Covid-19 tornou ainda mais premente a necessidade da dispensa de proximidade, minimizando as deslocações dos doentes aos hospitais.

A Operação Luz Verde, uma iniciativa da Ordem dos Farmacêuticos com vários parceiros, incluindo a SPEM, permitiu 8690 dispensas em 2275 farmácias, em abril e maio de 2020.

27 mil doentes estão já incluídos em projetos de proximidade, dos quais 56% beneficiam de entrega na farmácia comunitária e 42,6% de entrega ao domicílio.

Os dados referentes ao acesso ao medicamento mostram que 60% dos doentes crónicos (228 mil doentes), que tomam medicamentos dispensados na farmácia hospitalar, receberam a sua medicação em casa ou na farmácia comunitária que habitualmente lhes presta assistência. Este novo serviço articulado entre farmacêuticos hospitalares e comunitários é bastante elogiado, com 83% dos inquiridos a considerar positivo ou extremamente positivo e 76% a defender a sua continuação após o período pandémico.

Benefícios do modelo de dispensa de medicamentos

Para Paulo Gonçalves, Vice-Presidente da SPEM, “as vantagens são enormes e mensuráveis. Vão desde a redução de faltas e ausências ao trabalho, a redução de custos para as famílias, o aumento da produtividade, a redução de stress familiar a melhoria de qualidade de vida dos cidadãos, o impacto positivo nas contas da Segurança Social, o impacto positivo nos hospitais e melhoria na eficiência dos hospitais e na saúde público”, explica à Infopharma.

Segundo o Índice de Saúde Sustentável (um estudo desenvolvido pela faculdade NOVA-IMS com o apoio da biofarmacêutica AbbVie), em média, cada doente faz 7,6 deslocações ao hospital por ano para levantamento dos medicamentos, sendo que cada ida ao hospital tem um custo de 14.30 euros para o utente e representa 5h27 de tempo despendido – 4h10 nas deslocações e 1h17 no hospital. Somando o custo total das idas do doente ao hospital (36 milhões de euros) com o valor económico do tempo despendido (149 milhões de euros), a dispensa de medicamentos tem um custo anual de 185 milhões só na ótica do utente. No total, para utentes e hospitais, a dispensa de medicamentos em farmácia hospitalar tem um custo de 199 milhões de euros por ano.

Assim, cada doente que mudou para o modelo de dispensa de proximidade de medicamentos, durante o confinamento da primeira fase da pandemia, poupou em média 112 quilómetros em deslocações ao hospital (ida e volta), sendo que 92% dos doentes passaram a gastar menos de cinco euros nas viagens. Estas são algumas das conclusões do estudo “Acessibilidade e Dispensa de Proximidade ao Medicamento Hospitalar”, promovido pela APAH, que contou com uma amostra de 510 indivíduos (entre outubro e novembro de 2020).

As razões apontadas para a mudança do local de levantamento/dispensa são o conforto, a poupança e a rapidez. De acordo com o inquérito, antes do confinamento, 55% dos doentes tinham de que faltar ou tirar férias no trabalho para poderem levantar a medicação. Com a passagem para o modelo de dispensa de proximidade, 90% dos inquiridos deixaram de ter essa necessidade.

Além da deslocação, 59% dos utentes esperavam entre 15 a 60 minutos pelos medicamentos na farmácia do hospital. Com a mudança, 80,5% passaram a esperar menos de 15 minutos (na farmácia de proximidade ou em casa). Note que, quase dois terços dos inquiridos estão dispostos a pagar para receber a medicação no local que pretendem, independentemente do pagamento ou não de taxas moderadoras.

No futuro: dois modelos de dispensa, em função dos fármacos e da vulnerabilidade do utente

Os doentes que levantam medicação nas farmácias hospitalares vão poder optar pela dispensa na farmácia comunitária que indicarem, no centro de saúde ou num hospital mais próximo, ou em casa.

São as propostas de um grupo de trabalho criado para estudar a dispensa de proximidade, um projeto que já existe em alguns hospitais e se pretende alargar a todo o país. Os doentes poupam tempo e dinheiro em deslocações, melhoram a adesão terapêutica e conseguem-se melhores resultados em saúde. Numa primeira fase, poderá chegar a cerca de 32 mil pessoas com doenças oncológicas em tratamento.

O relatório esteve em discussão pública até janeiro e recebeu contributos de várias entidades, que estão a ser analisados para apresentação de uma proposta de relatório final, que incluirá um conjunto de recomendações, como alterações legislativas, adiantou o Infarmed ao Jornal de Notícias.

Na proposta em discussão, foram definidas duas formas de dispensa de medicamentos distintas, mas complementares. Uma prevê que os medicamentos dispensados na farmácia hospitalar, que já têm genéricos e não impliquem seguimento, sejam transferidos para a farmácia comunitária, sem custos acrescidos para o doente; a outra é só para alguns medicamentos e preferencialmente para os doentes mais vulneráveis em termos de mobilidade, distância geográfica ou condição socioeconómica. Nestes casos, está prevista a dispensa em hospitais de proximidade, centros de saúde, farmácias ou no domicílio.

Segundo Luís Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), “as farmácias são uma peça fundamental no ciclo de vida do doente. As experiências que foram implementadas durante a pandemia correram bem”, conta à ROF.

Assim, no futuro, Luís Goes Pinheiro aspira retirar partido “dos canais presenciais de proximidade” como as farmácias, criando uma “abordagem multicanal que permita ao cidadão ter sempre, por onde quer que entre, a mesma boa experiência dentro do SNS”, visto estar a considerar a criação de “acesso multicanal do cidadão ao SNS, dando continuidade à experiência que temos hoje com o SNS 24 (…) e estendendo-a a outros canais, designadamente, ao canal digital”. No caso do canal digital está pensado o desenvolvimento de uma “app única que agregue os diversos serviços que podem ser utilizados pelo cidadão, apenas com um único portal, para simplificar o acesso (…) a esta ferramenta”.