O Dia Mundial da Fisioterapia é celebrado anualmente, desde 1996, no dia 8 de setembro, que corresponde à data da fundação da World Confederation of Physical Therapy (WCPT), no ano de 1951. Segundo a Associação Portuguesa dos Fisioterapeutas, “o dia assinala a união e a solidariedade da comunidade local de Fisioterapia e é uma excelente oportunidade para os fisioterapeutas de todo o mundo demonstrarem o valor da profissão na manutenção e/ou melhoria da mobilidade e independência funcional”.

A Esclerose Múltipla e a Fisioterapia andam de mãos dadas numa relação apertada em que a reabilitação é parte
fundamental do tratamento de EM. Este acompanhamento é realizado através de profissionais especializados que, face à particularidade da doença, adaptam a sua resposta a cada necessidade do utente. Estas respostas permitem que a qualidade de vida do portador de EM aumente substancialmente, seja através de um melhor desenvolvimento motor, como também do bem-estar emocional.

Para comemorar este dia tão importante, falámos com um dos fisioterapeutas da SPEM. Conheça o EM’Perfil do Alejandro Carrabs na página 14 do Boletim 25.

Quais são as preocupações mais comuns de um utente que chega à fisioterapia da SPEM?
Normalmente, os utentes que vêm cá pela primeira vez têm o receio de saber o que podem ou não fazer e até onde podem chegar. Muitas das vezes, o principal problema é a marcha, uma vez que o andar fica mais comprometido e limita-os mais em termos de funcionalidade. Na fisioterapia, a marcha é a maior limitação. Noutras áreas, estão bastante limitados na deglutição, na fala, etc., mas há outros que são mais afetados em termos de motricidade fina, que acabam por não conseguir fazer tarefas funcionais do dia a dia, como por exemplo a higiene pessoal.

Sendo assim, os objetivos dos utentes acabam por estar mais relacionados com a marcha?

Exatamente. A marcha está condicionada quer por causa de alterações de equilíbrio, quer por causa de falta de força muscular, e isto tudo virá a ser intensificado perante a fadiga que os utentes apresentem. Ou seja, são três os sintomas e sinais que são mais frequentes, e os que em conjunto limitam mais a marcha. Para tentar resolver esta
questão, muitas vezes propomo-nos a utilizar alguns auxiliares da marcha e trabalhamos muito em função do aumento da força muscular. Esses auxiliares ajudam a aumentar a força muscular, controlar o movimento e assim conseguem aguentar mais tempo a andar, toleram melhor o exercício e a posição em pé.

Sendo a EM uma doença que afeta os portadores de diferentes formas, como é adaptado o planeamento para cada utente?

É feito através de uma avaliação inicial em que tentamos recolher a máxima informação do utente a partir de processos que já tenham, através de relatórios médicos que tragam consigo, e depois também fazemos uma espécie de entrevista onde perguntamos de onde vem, que tipo de Esclerose Múltipla tem, e em grosso modo, quais são as
maiores dificuldades. Depois desta entrevista é que vamos encaminhar a nossa avaliação a posteriori.

Fazemos a avaliação de forma manual e conseguimos avaliar manualmente, comparando um lado com o outro para saber onde é que há um défice de força muscular. Vemos se existe alguma limitação em termos de amplitude dos movimentos, vemos se existe limitação em termos de sensibilidade, isto tudo através da avaliação. Temos testes de avaliação mais funcionais: exercícios que nos permitem saber qual o grau de incapacidade do utente, e de seguida conseguimos comparar em diferentes momentos de avaliação para saber se existe um progresso, estagnação ou decréscimo na função.

E na generalidade dos casos, há uma melhoria da situação?

A longo prazo não consigo dar uma resposta concreta porque estou aqui há menos de um ano, mas o que tenho verificado é que existe uma boa resposta ao tratamento numa fase inicial, às vezes até também em conjunto com a medicação que tomam, que muitas vezes quando está a iniciar os tratamentos – porque o diagnóstico é feito há pouco tempo, há uma adaptação em termos de dosagem e da própria medicação. Encontrar uma boa medicação ajuda nos sintomas. Depois, juntamente com a fisioterapia, muitas vezes os efeitos são notórios a curto prazo. Naqueles que têm sido os meus utentes, e que tenho acompanhado mais em proximidade, tenho verificado melhorias em termos da função motora e força muscular.

Quais são os maiores desafios na vida de um fisioterapeuta?

Eu diria que a flexibilidade e lidar com as pessoas. A flexibilidade porquê? Muitas vezes, o fisioterapeuta não fica apenas no local de trabalho, e mesmo que fique, pode haver muitas valências que tenhamos de cobrir, nomeadamente regimes de trabalho. Hoje em dia, com a questão da pandemia, também fazemos teletrabalho, trabalho presencial, trabalho domiciliário e por aí fora, portanto temos de ter várias valências em termos de
execução profissional.

Além do fator físico, acha que há uma relação positiva entre a fisioterapia e o estado emocional do utente?

Totalmente. Quando eles estão motivados para o tratamento e veem que a coisa resulta, daí para a frente tudo corre muito melhor. E o contrário também se verifica… quando estão muito em baixo, sobretudo nesta população que precisa de um acompanhamento em termos de psicologia, tentamos que eles se sintam mais motivados, porque não
havendo motivação é muito difícil que o tratamento faça efeito.

Nesta fase de pandemia, como foi feita a adaptação da fisioterapia na SPEM? Quais foram os maiores desafios?

Eu cheguei mesmo em contexto de pandemia e algumas estratégias de intervenção já tinham sido adaptadas, portanto o meu trabalho acabou por continuar a aplicá-las. Obviamente que fui pondo algum cunho da
minha parte para melhorar o serviço.

Essencialmente o serviço a nível de teleatendimento tem passado por várias plataformas digitais de acordo com a capacidade e necessidades do utente, tais como o Zoom, Whatsapp, Messenger, Skype, etc. Tem havido projetos para promover a telereabilitação, nomeadamente com o BPI Fundação La Caixa, Multiple Sclerosis Internacional Federation (MSIF) e o feedback tem sido muito bom, até temos tido a oportunidade de introduzir classes de fisioterapia. Temos um grupo, conseguimos fazer exercícios adaptados e tentamos ter um grupo mais ou menos homogéneo de forma a não haver muitas alterações em termos do exercício e tem corrido bastante bem. Sendo à distância, é desafiante, principalmente numa
fase inicial em que temos de avaliar as capacidades do utente, sobretudo tendo um grupo.

Qual foi o momento mais feliz da sua carreira enquanto fisioterapeuta da SPEM?

Acho que não tenho apenas um momento marcante, diria que são aqueles do dia a dia quando há algum reconhecimento por parte do utente a dizer que está a gostar do meu trabalho ou que acha que se está a sentir muito melhor e isto acontece com alguma regularidade.

Complete a frase: a fisioterapia é…

Fisioterapia tem a ver com a qualidade de vida. O que nós pretendemos é que a pessoa tenha a máxima qualidade de vida possível e isto não se verifica apenas na EM mas em todas as doenças e contextos possíveis. No contexto desportivo, tentamos melhorar sempre a qualidade de vida do atleta quando ele tem uma lesão porque, tendo essa
lesão, a sua qualidade de vida está a ser comprometida ao não se sentir útil na modalidade que está a praticar. Temos de recuperar e melhorar a função dessa pessoa e dessa zona afetada e isso está diretamente relacionado com a qualidade de vida.

Também tem a ver com a empatia. Se formos por palavras, a fisioterapia é uma profissão que requer muita empatia por parte do profissional de forma a perceber quais são as inquietudes, problemas, necessidades do utente, de maneira a ir ao encontro das mesmas e resolver na medida do possível.

A fisioterapia é também engenharia do corpo porque temos de tentar adaptar as ferramentas de intervenção que temos, às características anátomofisiológicas do indivíduo e muitas vezes cada exercício é pensado individualmente para cada utente. A nossa intervenção, apesar de termos meios de intervenção como a eletroterapia, o exercício passa muito pela reabilitação do utente e é essencial quando é aplicado de forma correta, por isso às vezes temos de escolher a melhor forma de adequar um exercício.

A equipa de Fisioterapia da SPEM é constituída pelos fisioterapeutas: Sofia Batista, Gustavo Ribeiro, Maria Carla e Alejandro Carrabs e pode fazer a sua marcação através do contato telefónico 218 650 480 ou via e-mail para: [email protected]

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